A BNCC e o novo Ensino Médio (entrevista)

No Brasil, entre os assuntos que foram mais discutidos recentemente por educadores e profissionais da área de educação estão a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a reforma do Ensino Médio, segmento no qual se encontra a maior taxa de evasão escolar do país.

Como serão realizadas essas mudanças? Quais serão os principais desafios? Como o Sistema de Ensino Poliedro poderá ajudar as escolas parceiras neste momento?

Para responder a esses e outros questionamentos, conversamos com Fernando da Espiritu Santo Filho, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Sistema Poliedro. Leia a seguir.

Fernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Sistema PoliedroFernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Sistema Poliedro

Conecta: A BNCC e a reforma do Ensino Médio podem trazer diversos benefícios, mas também gerar um período de desconforto e dúvidas sobre as mudanças estruturais e a necessidade de investimentos. Como você analisa as discussões no cenário atual e as preocupações de gestores, professores e outros profissionais da área de educação?

Fernando: Podem existir dúvidas e discussões sobre qual seria o modelo ideal de Ensino Médio, mas há um consenso sobre o que o modelo atual não é. O modelo estagnado de Ensino Médio não é capaz de preparar os nossos jovens para os desafios de amanhã.

Podemos fazer um exercício simples: basta consultar a Agenda 2030 da ONU e questionar se estamos desenvolvendo em nossos jovens as habilidades e as competências para cada um dos 17 objetivos propostos nela. Sabemos que faltam algumas coisas no Ensino Médio e que precisamos fazer algo urgente. Essa é a verdadeira discussão que está pautando as reformas educacionais vivenciadas no Brasil: o que fazer e como fazer para preparar nossos alunos para o amanhã.

É claro que um processo de atualização dos paradigmas educacionais requer mudanças estruturais e até mesmo consideráveis investimentos, mas o maior esforço será no entendimento sobre o que essas reformas representam na definição de qual educação queremos ofertar aos nossos alunos e como queremos fazer isso, lembrando que não podemos perder de vista os vestibulares e o Enem.

 

Conecta: Muitos educadores elogiam o incentivo que a BNCC dá ao trabalho interdisciplinar no Ensino Médio, assim como à questão do conteúdo contextualizado. Para muitas escolas, essa é uma mudança grande. Você acredita que, de modo geral, as escolas terão dificuldade para se adaptar?

Fernando: O maior desafio das escolas será estabelecer novos paradigmas educacionais em que o conteúdo de uma disciplina extrapole os limites de uma aula, pois os novos referenciais educacionais sugerem a abordagem interdisciplinar, contextualizada e significativa. Esse é um grande desafio porque ainda hoje muitos definem como um bom professor aquele que é especialista em transmissão de conteúdos dentro de sua área de atuação. Com isso, muitas vezes o desenvolvimento de competências comunicativas e socioemocionais acaba sendo relegado a esparsos trabalhos escolares que não podem tomar muito tempo. A mudança não é uma tarefa fácil, mas com organização e planejamento é possível.

 

Conecta: Alguns professores ainda têm dúvidas sobre como conduzir suas aulas de acordo com as orientações da BNCC. Como o Sistema de Ensino Poliedro pode ajudar as escolas parceiras nesse sentido?

Fernando: Nesse cenário de mudanças e incertezas, o Sistema de Ensino Poliedro possui o diferencial de manter profissionais dedicados ao estudo e à discussão das novas políticas educacionais, visando a compartilhar o conhecimento acumulado para as escolas parceiras via consultoria pedagógica e por meio dos nossos canais de comunicação, entre eles a TV Poliedro (nosso canal no YouTube), o Portal Edros e a Revista Conecta.

Outro grande diferencial do Sistema Poliedro é o projeto Formar, um espaço de aprendizado e troca de informações pedagógicas. Seja no ambiente virtual ou nos encontros presenciais, professores podem conhecer novas estratégias de ensino, receber atualizações pedagógicas, desenvolver uma reflexão crítica e compartilhar experiências com seus pares.

 

Conecta: As propostas apresentadas apontam para um currículo voltado para a formação integral, com destaque para o protagonismo do jovem e a construção do seu projeto de vida, o que inclui a formação de aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais. Considerando essa premissa, o que o Sistema Poliedro oferece para as suas escolas parceiras?

Fernando: O currículo é um projeto ou plano educativo que contém a normatização das práticas realizadas ou pretensas de cada escola. Nesse sentido, o Sistema Poliedro continuará fortalecendo a realização desses currículos ao fomentar conteúdos para o desenvolvimento das competências cognitivas dos nossos alunos, sem perder de vista o desenvolvimento de outras competências.

Há diversas ações realizadas anualmente que visam à formação integral dos alunos. O projeto Arte & Cultura Poliedro, por exemplo, promove um concurso em que os estudantes das escolas parceiras expõem ideias e expandem capacidades argumentativas para desenvolver competências cognitivas, socioemocionais e comunicativas. Outra ação importante é realizada durante o Prêmio Excelência, oportunidade em que são apresentadas as melhores ações pedagógicas e práticas inovadoras das escolas parceiras.

É importante destacar que mantemos um estudo constante sobre as Novas Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio e sobre a BNCC e aguardamos algumas regulamentações específicas para aprimorar a oferta de soluções pedagógicas para as escolas parceiras.

 

Conecta: De acordo com o que foi aprovado, 60% do currículo será estabelecido pela Base, e 40% será destinado aos itinerários formativos. Qual o impacto dessa medida para o Sistema Poliedro e suas escolas parceiras?

Fernando: A implementação da reforma do Ensino Médio ainda terá de enfrentar uma jornada considerável, pois nem todas as definições foram estabelecidas. Por exemplo, o Ministério da Educação ainda não publicou referências para o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) do Ensino Médio seguindo as novas regras dessa etapa da educação.

Por outro lado, há uma grande possibilidade de as escolas atualizarem os currículos e passarem a incluir como componentes curriculares, algumas atividades escolares, como grupos de estudo específicos (olimpíadas científicas etc.) e atividades que atualmente são consideradas extracurriculares (oficinas de artes, espaço maker, empreendedorismo etc.). O próprio MEC define que os itinerários formativos compõem um “conjunto de situações e atividades educativas que os estudantes podem escolher conforme seu interesse, para aprofundar e ampliar aprendizagens em uma ou mais áreas do conhecimento”.

A consultoria pedagógica do Sistema de Ensino Poliedro continuará a oferecer apoio para que as escolas parceiras façam a revisão ou a construção dos seus currículos de acordo com os interesses e necessidades das suas realidades locais.

 

Conecta: Como você avalia o novo modelo de Ensino Médio e as orientações da Base em relação à transição entre as etapas de Ensino Fundamental e Ensino Médio?

Fernando: Os propósitos da reforma do Ensino Médio são louváveis, mas se não ocorrer um empenho pedagógico e político por parte do Ministério da Educação para repensar os processos de acesso ao ensino superior, em especial os vestibulares, essas reformas podem não atingir os objetivos esperados.

Sobre a transição entre as etapas, é corriqueiro o comentário de que a Base não explicita ou descreve o que os professores devem ensinar. De fato, se o olhar for exclusivamente para a BNCC do Médio, encontraremos dificuldades para conceber um novo currículo. A BNCC indica ao Fundamental as habilidades que permeiam os conhecimentos que serão aprofundados e mobilizados durante a etapa do Médio, por isso não devemos pensar em transição, mas sim em continuidade. Os profissionais da educação precisam tomar conhecimento de todas as etapas para ter uma visão completa.

 

Conecta: Alguns dos países considerados muito acima da média em avaliações sobre a qualidade do ensino adotam trilhas acadêmicas e vocacionais, ao contrário do Brasil, país que adota uma trilha única em função do Enem e demais exames para acesso ao ensino superior. Com as mudanças propostas, algo deve mudar?

Fernando: No Brasil, os vestibulares ocuparam um espaço muito importante na educação básica e se tornaram indutores de currículos escolares. Essa etapa da educação ficou desconectada da realidade da maioria dos brasileiros, afastando muitos jovens e causando um elevado índice de evasão, principalmente no Ensino Médio.

A ideia de permitir trilhas de aprendizagem que se moldem aos interesses de cada estudante é uma das soluções para melhorar os níveis educacionais do Ensino Médio. Entretanto, ainda precisamos verificar como os vestibulares e o Enem irão se ajustar para conseguirmos propor mudanças efetivas na educação dos nossos estudantes sem distanciá-los do ensino superior.

 

Conecta: Qual sua recomendação para as escolas parceiras sobre como elas podem se preparar para essas mudanças?

Fernando: Cada escola tem sua própria realidade, suas próprias demandas e seus próprios compromissos educacionais. Ou seja, o projeto político-pedagógico (PPP) de cada escola é único. As reformas educacionais fomentadas pela BNCC e pelas novas diretrizes curriculares convidam cada escola a revisitar seu PPP e seu currículo.

Nesse sentido, um possível primeiro trabalho seria reunir a equipe docente para uma discussão sobre as dez competências gerais da BNCC, refletindo sobre como a escola pode chegar a essas competências ou verificar quais já estão desenvolvidas. Para auxiliar nessa tarefa, a consultoria pedagógica do Sistema de Ensino Poliedro disponibilizou vídeos explicativos de cada uma das competências gerais da BNCC (disponíveis na TV Poliedro, nosso canal no YouTube).